Um bom diálogo político é sem excessos

Em tempos eleitorais é importante tomar certos cuidados para não transformar discordâncias na política em brigas. Moderação vai do consumo de bebidas alcoólicas até o uso dos seus argumentos. Veja as nossas dicas.

As eleições se aproximam e os ânimos de todos estão aflorados. A maioria de nós quer exatamente a mesma coisa: votar em alguém que acreditamos que vai nos conduzir para uma sociedade mais segura, com amplo acesso a serviços de educação, saúde e, claro, sem corrupção. Por diversos motivos, porém, discordamos sobre quem é esse candidato ou sobre qual é a melhor proposta nesse ou naquele quesito. E aí pronto, está instalada a briga política. Mas não tem que ser assim: é possível conversar, discordar e, ainda assim, não transformar o diálogo em guerra. Como? Basta evitar os excessos.

O primeiro excesso a ser evitado é o de bebidas alcoólicas. Não passe dos limites, pois a tendência é que você aumente seu tom de voz sem perceber e tenha reduzida a sua capacidade de apresentar argumentos. E lembre-se: no dia da votação é proibido vender e consumir bebidas alcoólicas em muitas cidades do país, então se já é dia de votar, deixe as discussões nos bares para o período até o segundo turno. Essa legislação muda em cada região do país, então o ideal é visitar o site do Tribunal Eleitoral do seu estado para saber os horários estabelecidos.

Outra coisa importante é conhecer as propostas que defende para conseguir expressar sua opinião com mais clareza e verificar sempre as fontes das informações para não cair em fake news. Também evite exagerar no envio de memes e informações pelos grupos de WhatsApp, porque sem a devida contextualização, suas piadas ou opiniões podem parecer agressivas para algumas pessoas. E acredite: você não vai mudar a opinião de ninguém com essa estratégia. Se quer expressar verdadeiramente seus argumentos para alguém, prefira a conversa cara a cara e tente ser o mais amigável possível.

Um bom caminho para encontrar equilíbrio nessas conversas pré-eleitorais está nas propostas do psicólogo americano Marshall Rosenberg, que desenvolveu o que tem sido chamado de “comunicação não violenta”. Segundo ele, estratégias violentas, verbais ou físicas, fazem parte dos nossos processos de interação e nos impedem de alcançar a empatia um com o outro. Seria, então, necessário superar isso para que pudéssemos ter relações mais saudáveis no dia a dia, o que significaria uma convivência mais harmoniosa entre todos. Além disso, essa técnica ajudaria a alcançar objetivos que tantas vezes são escamoteados pela raiva e agressividade que certas situações despertam em cada um.

Abaixo, explicamos alguns dos principais conceitos da comunicação não violenta e damos dicas sobre como elas podem te ajudar a ter debates eleitorais produtivos sem perder amigos.

Busque entender o outro

É importante ouvir o que o outro tem a dizer, mas não com o objetivo de usar contra ele tudo o que disser. Escute e busque compreender seus argumentos. Coloque-se no lugar dele. Não tenha medo de perguntar mais para compreender melhor e exagere na hora de marcar posição: você não precisa afirmar sua opinião contrária a todo momento. Primeiro, é preciso entender o que o outro diz para só depois concordar ou discordar.

Assim, se seu amigo começou a defender um candidato do qual você não gosta, busque entender porque alguém que você respeita tanto tem simpatia com aquele político. Pergunte sobre quais propostas o agradam, sobre o porquê ele acredita que elas são boas. Caso ainda discorde da opinião dele, coloque os seus argumentos sem deslegitimar as necessidades e visões dele. Deixe claro que entende a preocupação dele sobre esse ou aquele tema, mas que talvez ele devesse considerar também esse ou aquele aspecto do problema.

Mostre os seus sentimentos

Um dos princípios da comunicação não violenta é deixar claro o que se sente, sem medo de parecer vulnerável, e a regra é a mesma quando o assunto é política. O argumento de Marshal Rosemberg é de que dessa forma você desarma uma possível contra-reação violenta ao que você disse. É uma estratégia para guiar o outro para uma interação empática com você. Isso deve ser feito sem excesso de generalizações e de forma descritiva.

Para levar o exemplo para o nosso período eleitoral, seria algo como dizer “eu sinto medo quando o candidato X diz que vai adotar essa política” no lugar de “o candidato x é um monstro/ ladrão/ mentiroso”. No primeiro caso, você dará à pessoa com quem está conversando a oportunidade de entender o que aquela proposta desperta em você e avaliar a pertinência ou não do seu receio – e explicar a você isso. No segundo caso, você apenas deslegitima a escolha do seu amigo e acaba com a possibilidade de um diálogo não violento.

Identifique e fale sobre as suas necessidades

Para o criador do conceito de comunicação não-violenta, as interações humanas são carregadas de necessidades individuais ocultas. Só seria possível um bom diálogo a partir do momento em que conhecemos as nossas próprias necessidades e as expressamos com clareza. Dessa forma, as reivindicações ficariam claras e não enviesadas em agressões e insatisfações.

Por exemplo, no lugar de agredir seu amigo dizendo que ele só votará naquele candidato X porque “é machista”, que tal dizer que você, como mulher, gostaria de ver eleito alguém que defende essa e aquela ideia? Assim, você abre caminho para que o outro entenda quais são as suas necessidades específicas e porque isso é importante para você, na hora de falar sobre política.

Ou, ainda, prefira dizer “precisamos de pessoas que defendem propostas efetivas de combate à corrupção, como essa e aquela” do que dizer apenas “temos que acabar com a corrupção”. Todos querem acabar com a corrupção, é preciso mostrar as suas necessidades e desejos em relação às eleições de forma mais específica. Só assim a conversa poderá caminhar para um diálogo mais produtivo, do que tipo “eu acho que aquela medida seria mais efetiva” ou “o problema mesmo está nesse ponto”.

Empatia na política

O que todas essas dicas têm em comum é a busca por empatia. É preciso ver o outro e entender como ele avalia seus candidatos. Dessa forma, será possível compreender quais são seus sentimentos e suas necessidades e se colocar em seu lugar – seja esse lugar qual for: o de mulher ou homem, de hétero ou homossexual, de rico ou pobre, de negro ou branco. Calçando os sapatos dele, ou seja, entendendo de onde ele está olhando para a disputa eleitoral, será mais fácil manter o diálogo, especialmente se você conseguir, por meio das dicas acima, que a pessoa também entre em uma conversa empática com você e entenda a sua posição.

Outra dica importante: o objetivo de um diálogo na políticanão violento não é a vitória e sim a compreensão mútua. Não se trata de uma disputa sobre quem tem os melhores argumentos ou quem convence o outro. A ideia é que um possa entender a posição do outro depois de ter se colocado no lugar dele. Caso você tenha percebido que se equivocou em algum ponto e tenha ouvido algo que te fez repensar alguma posição, diga isso a seu interlocutor e abra o caminho para ele fazer isso também. Se isso não acontecer, tudo bem, só deixe claro que o respeita apesar das discordâncias.

Fontes:  The Center of Nonviolent Comunication, revista Exame e jornal El País.

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